terça-feira, 25 de agosto de 2015

Hoje vi Tom Zé comprando requeijão!

                Acordei de mais um pesadelo relacionado a você, Tarsila. O pesadelo é agradável, ô, se é! Assisto mais uma vez aquela cena, sua imagem cada vez mais fiel e a voz dele cada vez mais clara.
                Sim, ele.
                E naquele pesadelo, Tarsila, você me deixava mensagens de voz. Que saudades da sua voz! Eis que acordo e descubro que tenho uma nova mensagem – só não sei de quem. Sonolenta, dou o play, e que decepção foi saber das recomendações psiquiátricas. Ela, a psiquiatra, tem a voz muito abusada, rouca, grave.... Hoje em dia nada se compara sua voz, seu perfume.
                Ela mandou que eu me dopasse mais ainda. Mais até mesmo do que na época que qualquer armário me seria confortável – você já passou por isso, você já passou, você já.
                Você já...
                Me esquece! Gritamos tantas e tantas e tantas e tantas vezes a mesma pessoa. A mesma pessoa. Nós. Desatamos. Somos atos, somos “desatos”, somos minha mente, e por isso você me deprime, como um espelho às avessas. Você só me assusta, você só me enlouquece. Escrevo às pressas, no calor do momento (que é quando você me é fria).
                Você é um iceberg.
                Não no sentido de estar parcialmente à vista, Tarsila. Não espere esse tipo de metáfora aqui. Você cravou todo esse gelo em mim: cravou muito mais do que os outros podem ver – eu mesma vejo tão pouco, e sinto tanto.... Eu sinto muito, mesmo.
                E às vezes sinto como quem está arrastando um armário, aquele mesmo armário. Quando penso que estou livre, tem aquele peso, tem aquela coisa me prendendo.... É ele sim! A voz dele torna a me oprimir com frases desagradáveis, aquela falsa superioridade dele! Mas, Tarsila, minha querida, estava saindo tudo da sua boca! A voz dele estava saindo da sua boca. Você sorria...
                Então eu resolvi que ia me dopar. Por ser a segunda. Por ser.
                A segunda.
                Mais bonita mesmo era vista dessa manhã. Estava nublado e chuviscando, como gosto. Odeio calor, odeio gente feliz, mas adoro o Brasil.
                Ninguém mais quer parar e falar dos modernismos que batem à porta. Papo furado, dizem, e acrescentam falsos perigos para me calarem a boca. Vamos falar de pregos? “Sim, sim, sim, sim, sim, sim”; me pregaram e hoje carrego a cruz. Corrijo: armário.
                Caio do armário.
                E de lá sempre sai um monstro para me desejar boa noite. Isso já está ficando complicado.... Percebi que não sinto falta das pessoas com quem não falo há meses!
                E um antigo amigo que gostava de Augusto dos Anjos veio tacar lenha em uma fogueira que nem acendeu! Ainda bem, ele não ascende. Foi cair no papo de quem? Mário, aquele. O tal amigo veio querer ser atentado. Falhou de um jeito que deu até vergonha.
                Quase sinto pena, mas lembro que se trata de gente adulta e gente adulta tem que fingir que sabe bem o que faz. E sei bem a quem ele tem respeitado mais ultimamente.
                Você tem pintado tudo de vermelho, sabe? Seria mesmo o meu avesso? Outro dia disseram algo sobre eu ser jovem demais para estar pegando tão pesado nos blues. Concorda, é? Já faz tanto tempo que estou... assim.
                Quantos imbecis têm se interessado em me entreter. Tudo em vão. Que desgaste que é sorrir em falso. Tarsila, que desgaste! Não sei dizer quem sou, não sei dizer quem é você! Tarsila, que reflexo.... Sua imagem agora é turva.
                Eu não tenho a quem contar, mas fugi da conveniência; hoje deixei poemas meus no correio e tenho dó de quem pegar. Tenho dá de quem tiver que avaliar tanto amar, tanto mar.... Porque na hora jorrou tudo! Era água para todo o lado, foi hemorrágico!
                “Abre aí, por gentileza” um pediu, na sua condição de homem.
                Na sua condição de otário. Estou cercada de amadores. Amar a dor; estava escrito no armário. Quanta lucidez aquele ser! Nunca estanque, ele dizia, segurando uma de nós em cada mão. Uma metade em cada mão; e acabava por me ter por inteiro.
                Eu me pergunto se com ela foi assim. E ela, e ela, e ela, e ela, e ela, e ela...
                Dentre elas todas, quem mais me importa? Ela sabe? Talvez, Tarsila, talvez saiba. E você me deixa tão indiscreta, tão explícita diante... dela. Minha respiração vai falhando.
                Sinto que me afogo nessa tinta toda. Aquele que gostava de Clarice Lispector disse que escrever não é se esvaziar, e sim se preencher – no fundo eu já sabia.
                Aconteceu que eu atravessei a rua e estava desesperada por um café. Ignorei qualquer recomendação médica e fui. Entrei e pedi – o pessoal da padaria até já me conhece. Sempre sem açúcar, sempre sem sal. Eu vi Tom Zé então, de vermelho como a gente, Tarsila. Olhava a validade do requeijão. De início duvidei que fosse ele – a gente ainda tem um pouco da mania de endeusar quem escreve bem.
                Tornei a escrever isso aqui cerca de quatro horas depois, só para não deixar o dia acabar! Enfim, um dia vou me arrepender por essa timidez toda. Não pedi que ele autografasse meu caderno de poesias. Talvez porque nós dois estivéssemos de vermelho, com sono, enrugados. E eu tinha hora para voltar pra PUC.
                Mas era algo para sair dizendo por aí. Hoje vi Tom Zé comprando requeijão, Tarsila. E não tenho a quem mais contar. As pessoas que se importariam com isso, bom, eu não converso com algumas. Não falo com alguns amigos há mais de um mês e, pelo visto, não faço falta a nenhum – como já disse, eu também não estou conseguindo sentir saudade de ninguém.
                Ah, mas há sim gente que me faça falta, e como!
                Não é saudável para mim gostar de ninguém, Tarsila. Acho que mesmo o amor próprio me faz mal às vezes. Mas meu orgulho cede tão rápido que você vai ver: já já estou de volta (para quem me importa).
                Se bobear tem muito Andrade apostando qual de nós vai se matar primeiro, Tarsila. Imagina que susto eles tomam se morrermos juntas, de causas naturais...
                A psiquiatra estava falando para nos doparmos e lembrei de quem me escreveu cartas de amor em papel de receita médica. Ah.... Já fizemos certo sucesso nessa vida.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

LAMENTO DE UM BLUE / ELA NÃO SABE GRITAR

"I took a deep breath and listened to the old brag of my heart. I am. I am. I am."

The Bell Jar, Sylvia Plath (1961)



"Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou."

A Hora da Estrela, Clarice Lispector (1977)