segunda-feira, 21 de julho de 2014

o c e a n o

nada

meu corpo inteiro

que comigo só pode 

quem está a favor da maré


a mim só agenta água


viva e me cospe fogo


me nada


o corpo inteiro já 


é seu 

oceano

domingo, 6 de julho de 2014

alone alone above the raging sea [ GARRANCHO ]

...a seguir, uns trechos de um possível possível.  


" [ ... ] Ela vai cantar.
Eu sei.
Sim; e começa com o seu I could drink a case of you, oh darling, faz a sereia. E me olha: embriagada. Mas não completa, deixa  apenas a voz de Joni Mitchel declarar que, sim!, poderia me consumir até a alma e se manteria em pé. Sim.
Justo agora, meu bem, você tropeça. Joga a cabeça para trás, e me sorri. Aquele sorriso que me trouxe para perto de você um dia.
Se não vou me juntar a você? O vinho está tão bom... Escolheu aquele que gosto.
Não. Meu corpo está preso á parede. Observo você preparar a armadilha, como se farejasse muito bem. A sua pele toda arrepiada, o corpo que se recusa a se cobrir por qualquer coisa que não seja... Eu.
Tô indo embora, tento dizer.
Tô voltando para o meu futuro lar, entende?
Nada sai. Nem mesmo um sorriso. Nem mesmo uma lágrima. É apenas a aflição de olhar para você, minha ilusão. Minha verdade conformista: de que os leões estão a salvo nos zoológicos - enjaulados, de comida e sexo controlados, supervisionados, veja só! Minha ilusão de ótica. Você, seu sorriso me tranquilizando, seus seios me atraindo, e seus olhos, por fim, me devorando. E quando vejo, estou me afogando na sua boca, gritando seu nome.
Seu nome, por si só, já é a promessa de me devastar.
Dessa vez não, não pode ser assim. Saio da sua frente, busco meu casaco. O cartão postal ainda no bolso. Meu coração acelera.
Ô, Ana. Ô, Ana.
Sua voz é um eco sem resposta. Sua voz é linda. Sem resposta. É uma passagem só de ida.
Ô, Ana. Vê se não emagrece mais...
Que eu vou ficar sem graça; que eu vou acabar sumindo. Nada respondo, dessa vez. Apareço na sala, vestida.
Passo por você, depressa demais. Para sentir seus olhos. Não, não os sinto. Não a sinto. Até que a sua voz me chama uma última vez.
- Ô, Ana. Onde você vai?
Lugar nenhum? Vale dizer a verdade? Quando percebo, estou fechando a porta e minha voz chega, densa.
- Tô indo comprar seus cigarros. E já volto.
Desapareço. Dos nossos nomes, que hoje parecem tão falsos. Desapareço. Com um cartão postal que não nos pertence. Desapareço. Com um destino que vai excluí-la.
Excluir-me do resto da sua história.
Essas ruas não sentirão mais nosso tato. Voltarão a sentir o cheiro de mijo. Voltarão a procurar outros entorpecentes. Saímos do ar. Como um espelho: precisamos uma da outra para que se tenha reflexo. Mas eu desapareço, e você também.
Ô, Ana...
O eco se vai. Hoje choveu muito. O táxi arrancou com força. O avião decolou assim, leve, levíssimo. O vinho me caiu bem.
Serei mancha em cartões postais que talvez receba um dia. Um dia, talvez. [ ... ]"