domingo, 27 de abril de 2014

vermelho

" [...]  E o que me faz querer ser racional?
Já era verão quando voltei. Já era mais resistente á cerveja, já era mais compreensível às letras de Caetano. Já sabia os gestos de cor, o caminho de cor. Tudo de cor. I knew you by heart. O sol nos livrava das roupas, o sol nos livrava daquele rastro de neve. O sol nos livrava de nós, o sol nos livrava com Transa, o sol nos livrava e Caetano me livre, cerveja me livre. Uma vitrola sem agulha de testemunha.
As molas silenciaram-se e deram espaço às declarações vazias do que foi feito do rastro. Ninguém tem muito a dizer. 
Se eu fosse dirigir um filme, por que teria cores e, principalmente, por que seria linear?"

domingo, 20 de abril de 2014

esboço de roteiro de filme amador branco e preto

Versão - por enquanto - censurada; porque sim.


" [...]  Café caro na mesa, conversa de cerveja barata. Os últimos clientes daquele espaço reservado aos ricos, os ditos cultos, os que fingem saber algo de cinema. A terceira idade passava por nós e eu confessava meu medo - para não dizer desânimo - de envelhecer (de verdade). Está alguns passos à minha frente, e riu. Riu. Minhas mãos tremiam. É inverno.
Não engano ninguém, sabe bem. É a terceira vez em um mês; deixo a máscara cair em gestos pequenos. Invento grandes desculpas, feito criança.
Seguimos em frente. A essa altura já era domingo, e era inverno. Estava prestes a envelhecer - oficialmente.
Segurou minha mão. Paramos. Ainda não concluiram aquela obra, se quer saber. Estávamos em frente à construção quando me disse que não podia ir sem tentar.
Naquela noite confessamos nossa falta de fé nas coisas; para acabar assim. 
[...]
Eu sempre me obrigo a sorrir na derrota.
A verdade é que frustração sempre se resumirá, talvez, no"talvez". 
Vivo ciente de que qualquer vestígio de história idealizada é (ir)responsabilidade nossa. Sim, não há nada de muito bonito em finais tristes. E há tudo de horrível naquilo que não está concluído, e mesmo assim está ali, visível, como aquela obra. Sempre fica a dúvida. O que seria se a tivessem concluído? Será que teria continuidade? 
[...]
As pessoas todas pareciam mais distantes do que nunca. Agora eu me desfazia na queda livre. Agora era tudo contradição; e eu, mesmo com medo, gostava. Gosto. Do suor quente em pleno inverno. Das impressões digitais se confundindo, e de um individualismo a dois. O mundo era distante. Eu sempre gostei da ilha, desse ideia. Da estupidez dita entre quatro paredes, a crença  que se faz no vazio... Então tudo, tudo ali, era uma confusão que se transformava em paz. 
Esquecemos de tudo que a neve cobriu. Era frio, era confortável, era distância. Mas era o que nos mantinha vivos; o desacato às visitas religiosas, a ignorância às etiquetas e as confissões pequenas (mas tão grandes) no final. Tudo se misturava bem. 
Confissões dos fetiches mais absurdos aos preconceitos mais aceitáveis; meu olfato às vezes sente essa tranquilidade pairar quando me encontro só - naquele sentido de privacidade. De vez em quando choro, quando sangra.
Solto um riso solto para ver se serve de disfarce. Rá rá rá rá.
[...]
Escrevi páginas e mais páginas sob o efeito do silêncio. Silêncio. É aquela resposta contraditória ao caos. E dói. Nada justificará a minha falta de expressão. Nada justificará o meu silêncio. O medo não é justificativa, o medo não é conveniente assim. Acabaram-se as desculpas, mas não deixei a máscara cair quando foi necessário; agora já foi.
Foi.
Foi.
E foi.
Simplesmente: foi. Nada mais, nada menos. Tudo se resume a três letras, e vendo de maneira racional, parece fácil. Ser racional parece fácil. Mas não há ser racional resistente ao "nunca"; que dirá ao "nunca mais". [...]

Continua, porque sim.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

exílio






botei na balança

você  não  pesou

botei na peneira

você não  passou




Caetano.