sábado, 20 de outubro de 2012

le voyage dans la lune



pas de deux


Dobrei a esquina e cheguei à Lua.
Pergunte-me então como é a vista aqui de cima.
Sem saber que meu corpo continua nos trilhos.
Ou ignorando, apenas.
Seja como for, o que tomou junta poeira na estante.
E o que sobrou, meu bem, os vermes dão conta.
Aos poucos.
Se quer saber; ainda.

Ainda está aqui?
Para ouvir a história toda?
Da falta de gravidade ou das pegadas na Lua.
Nenhum sóbrio pisa na Lua, meu bem.
Apenas aqueles que se embriagaram da própria melancolia.
E os militares não sentem.
Só o medo, porque é isso que nos torna humanos.
Mas eles andam com colete a prova de bala.
Só anda com colete a prova de bala quem está armado.
E você sabe.
Pior sou eu, que me escondo na cabine telefônica.
De vidro blindado.
Sem ter para quem pedir ajuda.
Quando puxo o gatilho contra mim.


~º~º~º~º~º~º~º~º~º~º~º~º~


Tudo que passava na frente dos meus olhos se resumia a... nada.
Há poeira acumulada na forma de castelos e moinhos.
Sem as sapatilhas; danço pas de deux sobre a falsa memória.
Dava para escrever sobre toda a farsa que parou no tempo.
Não; não dá mais.

Não passou de delírio.

Os cartazes me pedem para manter a calma.
Quando tudo o que vejo é o monte de poeira desmoronar bem na minha frente.
As cinzas se desfazendo nos meus dedos.
Minha pele se vai, ao mesmo tempo.

Missa de décimo terceiro dia.
Algo aqui dentro morreu; então?
Acho que foi a fé.

Quantos dias não durmo; quantos dias a cabeça lateja?
Há certeza.
Do vazio que a ausência preenche.
Meu corpo desequilibrado pela saudade, o nada arde.
O nada que me deixa é o que me faz crer que tenho tudo a perder.
Porque insistem, aconselham...
Cartazes dizem que não temos nada a perder.
O que me causa esta angústia se resume a... nada.
Veja bem; está em tudo.
O nada é tudo que eu tenho.

Falo, pareço nem sentir as palavras passando pela garganta.
Ouço o nome do que sinto e parece ter saído da boca de um outro alguém.
Tudo parece tão distante; quase inexistente.
Permito que a  baixa temperatura tome conta do meu corpo; por não ter onde me segurar.
Que ideia a minha!, sei da ironia do corrimão.
Enfiaria as mãos dentro do próprio casaco para se manter aquecido.
E eu entorpecida da minha própria ilusão.

As ruas vazias consomem minha carcaça.
Os cartazes dizem para eu manter a calma;
apenas posso me sentir aquecida por olhares frios.
Eu acredito.

Quem estende a mão àqueles da plataforma não estende a mão ao cadáver nos trilhos.
Tento correr, mas ainda estou aqui.
O trem apenas passa por mim.
Não me atire conselhos como esmola, centavos como fôlego.
Não; não depende só de mim.

Quebraram minhas pernas para não fugir, e mesmo assim, concluo o pas de quatre.


~º~º~º~º~º~º~º~º~º~º~º~º~


O disco roda sob a agulha; piruetas e pas de deux... 
Saltando a poeira e repetindo passos riscados.
Arriscados.


jugband blues




Tudo o que ouço é sua voz dizer...
"Alice, acorda que o mundo é mau!"

domingo, 7 de outubro de 2012

l’arrivée d’un train en gare de la ciotat


pas de quatre



Então eu respondi aquilo que me perguntaram
Respondi que deixei nos trilhos do trem o que perguntaram estar no bolso de alguém.
Eu caminhei nos trilhos do trem.
Dancei o ballet clássico, como tinha de ser.
Dancei o pas de quatre sem ninguém por perto.
Sem outras três bailarinas, sem outros dois maridos, sem uma outra mão para segurar firme.
Corrimão.
Corri então, escadaria abaixo.
Acompanhada apenas pelo sabor da minha própria ilusão.
Mão então, com o vácuo do esconderijo que arranjei no delírio e na solidão.
Superlativo pesa.
É fácil dizer que para se livrar do peso um peteleco ou um balançar de ombros basta;

quando se tem muito dinheiro no banco.
É fácil dizer que apenas sentir o amor basta.
É fácil acreditar em Deus quando se necessita de uma mentira para sobreviver.
Ou fingir que ainda está aí, sem estar nem aí.
É fácil perceber que ainda estava vivo quando se sobe a escadaria.
Quando percebe o coração acelerar.
Quando olha para o alto e vê um relógio com ponteiro para girar, seu sangue para pulsar.
Sangrar.
Quando se desce a escadaria.
Mas é mais fácil perceber a morte.
Porque ela está sempre mais viva, mais bonita, mais temida e mais rica.
Que seu Deus, seu amor e seus ídolos.
E você.
Porque a morte abraça; os outros não.
E fica muito mais claro quando não se pode descer as escadas, por medo de altura.
Despenca então.
Tropeçando, mesmo que sóbrio.
A lei é seca; e para sonhar é preciso dormir.
E na queda, nunca tem corrimão para segurar.
Quando tem, fica ali, observando tudo, no maior descaso.
Fez-se inerte, quando na verdade é ferro maquiado; da mesma tinta que o poeta usa.
A lei da gravidade nunca quebra, mas seus ossos sim.
O trem vem; e eu fico.
O trem se aproxima; e eu espero.
A morte sorri.
E aponto a faca, num gesto patético de me sentir grande o suficiente para enfrentar a dor.
Mesmo dançando pas de quatre, que não é papel principal.
Ninguém brilha dançando o pas de quatre desacompanhado; na linha do trem.
E os trilhos são feitos do mesmo ferro do corrimão; o ferro que perfura meu coração.
Superlativo pesa no sangue e nunca se mostra suficiente.
Mas o trem se aproxima e continuo a dançar o que toca em minha mente.
Quando a música já é outra, quando os passos já são outros.
A morte sorri.
Sorrio de volta quando ela toma a faca da minha mão.
E enterra a faca no meu pé, para que eu não fuja; sabendo que não é necessário.
A escadaria já está deitada no chão; tudo no mesmo plano.
Mas eu olho tudo lá debaixo; tentando encontrar o cogumelo.
O trem passou; e eu fiquei.
No mesmo plano do chão.
Pensando no beijo que tinha gosto de cigarro apagado; ali, debaixo da cesta de basquete.
A bola cai; a ficha não.
A ficha nunca está limpa, e já estou de olhos abertos.
Mas dançando passos da música anterior, vivendo de sonho.
Quando o sol já insiste em queimar meu rosto e expor as dúvidas, as dívidas, tudo.
Se é o mundo que aqueceu de repente ou a morte que me esfriou.
O asfalto ferve e minhas costas resfriam; o ferro dos trilhos me queima e minhas veias param no tempo.
O relógio já não tem mais ponteiros, como nos sonhos de Bergman.
Mas isso aqui, isso aqui é realidade.
Meu corpo continuou nos trilhos; mas a vida apenas seguiu em frente.
No trem das onze.


º~º~º~º~º~º~º~º~º~º



 Nenhum sóbrio deve ter ido à Lua; apenas à rua.
Papéis na rua; todos muito atores, todos amadores.
Linha da vida.
Linha da morte.
Linha da sorte; inventei minha própria morte num garrancho sem nexo.
Sem metrificação ou escola literária, o amador rimaria com sexo.
Mas tudo isso fede a moralismo, e não felicidade.
Se quer saber.

strawberry fields forever




Tudo o que ouço é sua voz dizer...
" Alice, desce do cogumelo que o coelho já passou."