sexta-feira, 14 de setembro de 2012

uma resposta às pessoas da sala de jantar



Chego treze para as duas na Augusta, com o dinheiro na mão. Já acostumada com as filas desta cidade, acho cômico como senhoras ficam se gabando por pegar a fila preferencial do idoso - fica ainda mais engraçado quando as rugas se contraem; dava na mesma, é muita gente pra um cinema só. Nem é pra tanto, era uma dúzia no máximo. Mas tomara que um dia, um dia seja, para todos e sempre a mesma cerveja, Gil cantaria, e nessa situação cai muito bem. De qualquer jeito, todo mundo conseguiu garantir sua poltrona dois minutos antes do início da sessão - a sala de cinema vazia, o que era ótimo! Comerciais passam... E nesses cinemas um pouco mais alternativos, parece ser obrigação ter trailer de filme francês. Mania de pensar que francês é cult, inglês é cool. Então as luzes estão totalmente apagadas, e Caetano vem cantar com Gil na tela. A partir daí é um espetáculo. O mosaico que tem um fragmento melhor que o outro. É a exposição de Hélio Oiticica (seus belíssimos parangolés), trecho do filme Terra em Transe (pois é, gosto é gosto; gosto dele), a voz charmosa de Caetano Veloso, Gilberto Gil dando um show no exterior, Nara e Gal comovendo com suas vozes, meu fôlego - ou falta dele - com Os Mutantes, uma estreita brecha para Elis com Wilson Simonal... Como não se divertir com Nosferatu do Brasil? Tom Zé, que figura! O contraste da sombria ditadura com o colorido da música, acho que é isso. Um pouco de esperança quando não se pode sonhar. Curativo para as feridas abertas. Não consigo torcer o nariz nem quando Roberto Carlos aparece - que, sinceramente, nunca conseguiu passar na minha garganta. As imagens do exílio de Caetano e Gilberto... Londres, lugar que só tem chuva. Mais uma vez, me pesa uma certa ignorância. Por que dou mais ouvidos aos artistas estrangeiros se a verdadeira riqueza está aqui? País de berço. Nesse momento sinto, mais do que nunca, pena de menininhas declarando Paris, je t'aime ou I love London. Ou é meu exagero com o tal Brasil, mostra tua cara. Veio uma frase um tanto aleatória na minha cabeça, e na hora acabei definindo o movimento Tropicália como delineador da pátria - só Deus sabe o que eu quis dizer com isso, foi uma estupidez da boca pra fora. Saio do cinema quase cambaleando, com uma comoção parecida com a que se sente ao ouvir Echoes pela primeira vez (desculpe-me citar Pink Floyd hoje), ou A Day In The Life (hum, chutei o pau da barraca, já era). Quando se fala da rua Augusta, muita gente dá uma olhada maliciosa. A rua em que se pagam os orgasmos. Pode ser; quem usou a expressão "orgasmo musical" devia ter assistido a esse documentário. Assim que comecei a gostar do lugar que não tinha as melhores lembranças, Rua Augusta-ta (perdoe o plágio, Rita Lee). O que ainda estou fazendo na sala de jantar? Ocupada em nascer e morrer.




Pois temos o sorriso engarrafado, já vem pronto e tabelado... É somente requentar. E usar! É somente requentar. E usar! Porque é made, made, made, made in Brazil. Porque é made, made, made, made in Brazil.

sábado, 1 de setembro de 2012

Rascunho não autorizado.


O que faz você pensar que seu quarto está quente? A impressão que passa é que está tão frio - senão mais - do que estas ruas... Cobertas pela neve; é inverno, é o olhar das pessoas congela o asfalto atípico de um país tropical, abençoado por Deus. 
Qualquer boteco é mais quente que as esquinas. Você sabe. Você lembra. Você sabe que os passos ritmados podem mantê-lo confortável e até mesmo entorpecido. Você lembra que é na rua que você é pego com as calças na mão; a corrente de ar frio que atinge seu corpo e faz sua máscara cair. A realidade é fria e penetra cada poro seu, afim de cortar seus ossos. Afim de transbordar seus olhos.
E não adianta olhar para trás a cada passo que dá. Você sabe muito bem que é você mesmo que o persegue, é seu passado que condena. Ninguém mais. 
Você aguarda o trem na plataforma, encarando seus pés. E sabe o quanto a vida é vazia no momento em que a única magia restante é o contraste do seu corpo empalidecendo de luto com suas roupas escurecendo de frio. Você aguarda o trem na plataforma e espera que os trilhos o levem para a felicidade. O trilho alegre, uma porra dessas. E são expectativas em vão, porque o retorno é sempre o mesmo. Você até muda as bandas dos fones de ouvido, mas tem dias que os caras parecem dizer a mesma coisa. Tem dias que você não consegue diferenciar Wagner de Dylan; os dois soando ordinários! O mundo merecia explodir, a sociedade fede. Então o trem chega e você se arrepende de não ter pulado na frente, mesmo sabendo que não tem coragem - mesmo sabendo que não tem nada a perder.
No vagão você encara todo tipo de gente que era compatível ao seu paladar... E já não se surpreende. Perdeu vontade. Talvez seja a hora de procurar no Achados & Perdidos, mas não se encontra tesão no Achados & Perdidos, que dirá amor, e essas tolices. Tolices! Amor mata. Orgasmo também mata. Espermatozóides pela pia. Na verdade, você concluiu que a rotina mata. Ou é essa cidade, ou são as pessoas, ou é o transporte público, o sovaco fedorento na sua cara... Essa merda de bolsa ocupando mais espaço do que deveria. Essa mulher não tem banha demais para roupa de menos? Porra. Porra. Porra. Não é a toa que vive de brocha. 
Caio, você cai como minha máscara; lembra? A gente não tem mais máscaras não, mocinho, nem motivos para tê-las. E a gente que cai mesmo.
Clarice.