terça-feira, 24 de abril de 2012

Miss Lonely


Muito bem, Mr. Jones. Apenas mais um perdido por aí, como sempre. E você sabe disso.
Mas lá estava você, tem compromisso num sábado a noite, quem diria. Você tem o que? Uns trinta e pouco... Sua solteirice é inalada por quem passa perto, e toda energia que teria para alguém fica assim, gasta com trabalho. Mas tudo bem, você segue.
Como sempre, está lá, todo calado. Prestando atenção, como aluno bitolado, nada questiona. O professor faz de um jeito diferente, mas você nem pergunta o porquê. Não faz sentido.
Estacionou seu carro econômico, vestiu a jaqueta que sentiu falta. Seu jeans um tanto surrado, como costumava usar quando não era escravo do trabalho. 
Você não pode deixar de olhar para os grandalhões embriagados, junto de suas magrelas com cigarros. A vida que poderia levar, não é, Mr. Jones? Mas enfim... Seu cabelo já foi cortado. Sua barba não é ponto turístico pra muita moça, então é melhor se contentar com as revistas. As revistas entendem, e dão uma mão. Por aí, Mr. Jones? 
Que triste, que triste esses pensamentos. Você dá uma olhada para os lados, procurando. Mas não, melhor seguir em frente. O cara tá esperando.
É, o cara. Relembrar sua juventude, embora não tenha acompanhado a época de Dylan nas paradas de sucesso, Bob fez parte da sua juventude. É, um pouco de saudade e sonhos concretizados não fazem mal.
Você passa pelos corredores estreitos da casa de show. Estreitos pela fila do abastecimento. Oras bolas, Mr. Jones, você também já foi movido a álcool. Entra e pede um pouco de combustível. Antes mesmo de dizer alguma coisa elas já estão rindo de você, então é melhor beber tudo de uma vez, o show começa em poucos minutos.
É longe, porque foi o que seu bolso permitiu. Provavelmente, Mr. Jones, assim pensava, ficaria rodeado de casais apaixonados. É.
Você vai subindo a escada e vê um punhadinho de pessoas desacompanhadas. É sua fileira. Então ela... Ela ali, chama sua atenção. Faz seu tipo, físico pelo menos. Estava encarando o celular, no movimento repetitivo de ver as horas, hábito muito típico seu.
Pede licença, e você não sabe disfarçar um sorriso ao ver que seu lugar é ao lado dela. Ela também dá uma olhada, você pensa, pode ser um sinal, não é? Então senta, como quem não quer nada, mas você percebeu que ela percebeu. 
Fica lá, não lembra mais como que faz para puxar assunto. Percebe que ela olhou mais uma vez, então deve ter gostado de sua aparência, quem sabe. Ela não é do tipo que se importaria de ter metade da sua idade, o que é bom, não? 
Você simula um acidente e pisa de leve em sua sapatilha. Ponto, ela encara seu rosto e você manda um "desculpa" com sorriso que, você não percebe, como a maioria dos homens não deve perceber, mas que sorriso de tio tarado, Mr. Jones. Você deve ter pensado que o "ah, tudo bem" dela foi tímido, mas ela riu um pouco do seu jeito de investir.
Mr. Jones, as luzes se apagaram e ele apareceu. Você conseguiu ficar acomodado perto dela, e aos poucos estavam tão próximos que mais pareciam conhecidos de longa data. Você pensou, então, que a sorte estava lançada. Com certeza teria um pouco mais de sorte naquela noite.
Claro, você viu que ela não conseguia deixar de rir quando você tentava ser afetuoso durante aquilo tudo. Mas isso não desmotivou você, desmotivou?
Até que as luzes se acenderam, e todos de pé... Aplaudindo. Você, Mr. Jones, teve aquele sentimento jovem do "é agora". Bateu de leve sua mão no braço dela. Ergue a cabeça para o alto e encara seus olhos por instantes. Dá um sorriso de leve. Mr. Jones, você chega a conclusão que ela quer também. 
Ela encara o chão. Você segura em seu ombro, como quem quer puxar para perto. Ela apenas encara de novo, mas seu sorriso é como de quem se desculpa. E, sem mais nem menos, lhe deu as costas. E você ficou assim, confuso. Porque mais parecia que um provocara o outro desde o momento em que se viram.
Ela parou ou pouco no meio da escada e olhou mais uma vez para você. Você, Mr. Jones, tem aquele pequeno brilho de juventude, e ela é tão tranquila... Parece ser a tranquilidade que você nem tem mais. Mas ela parece estar de saco cheio desse seu espírito jovem, sabe? Então você apenas tenta seguí-la, mas logo desaparece no meio das pessoas.
E você, Mr. Jones, vai se perguntar, assim como outros perguntaram a ela... Se tinha alguém que a amava e que ela também amava, os dois se amavam... Ela respondeu... Não, é só coração partido. A outro respondeu que tinha alguém que amava, mas não sabia bem se ele a amava. E para você ela responderia... Tenho a mim. 
Você a batiza de Miss Lonely então. E passa na banca mais próxima, tem sempre uma gostosa a sua espera.


PS: Enfim, se tudo der certo, esta história continua. Das minhas mãos, né...

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Tira Tira Tira

  " Você virou o tira. Aquele que tira a liberdade do meu coração tirar você de minha mente. Tira, do bolso não é arma que tira, mas argumentos. Argumentos que me tiram a fala e o fôlego. Então tira meu coração.

Para você eles vão tirar o chapéu. Para você elas vão tirar a roupa. Você tira o dinheiro do bolso e tira proveito da situação.

Mas para você não tiro nada. A não ser a máscara."



Escrito no meu caderno de Matemática. Em algum momento de 2011. Não sei pra quem ou se foi mesmo para alguém. Só sei que gostei. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sim, senhor.


Minhas pernas aparentam estar inteiras, sim, senhor. Há, porém, algo inusitado. Vem de mim, tenho certeza. A atmosfera parece mais fria que meus dedos, que aparentam empalidecer a cada semana. Até parece que meu corpo vai deixar de existir. O café, no segundo copo da manhã, aparentava ferver mais que meu sangue. Meu sangue que berra tanto... Parece querer explodir cada veia minha, tornando-me indiscreta.
Sim, senhor. 
Temos aqui a possibilidade de um sorriso, isso que você disse?
E temos a certeza do que sou.
Entende até demais, mas fale mais. Sim, senhor.
Seja lá qual for a pergunta...

Entenda. Como bem entender.