segunda-feira, 12 de novembro de 2012

I never had the nerve to make the final cut.

Through the fish-eyed lens of tear stained eyes
I can barely define the shape of this moment in time
And far from flying high in clear blue skies
I'm spiralling down to the hole in the ground where I hide

Minha mão agarrava o lençol. Com toda força que me restava, eu o apertava. Faltava fôlego, e eu tentava recuperar entre um soluço e outro. Lástimas ditas em alto e bom tom; assim que me encontrava. Tentando solucionar no delírio a situação na qual me encontrava. Encontrava o que eu não encontrava. O meu corpo tremia de frio e medo naquela maca. Peças de roupa em algum canto do cômodo. Eu tremia. As lágrimas corriam, e eu só conseguia me rebater. Era um peixe fora d'água. Os gritos escapavam da minha garganta de maneira tão espontânea que eu apenas os ouvia, não sentia. Mas eu continuava presa à maca; minha cabeça rodava, e eu tinha sempre a sensação de queda livre. Quando eu já tinha chegado ao chão. 

If you negotiate the minefield in the drive
And beat the dogs and cheat the cold electronic eyes
And if you make it past the shotgun in the hall,
Dial the combination, open the priesthole
And if I'm in I'll tell you what's behind the wall.


________________________________________________


There's a kid who had a big hallucination
Making love to girls in magazines.
He wonders if you're sleeping with your new found faith.
Could anybody love him
Or is it just a crazy dream?


Torno a falhar, meu bem. Porque torno a falar. Então é assim. Chego com esta cara de quem não quer nada; a mesma cara de "não quero me apaixonar" que é conveniente fazer às quintas. No fim, estou aqui. Onde tudo começou. Para variar, e só.
Só.
Pergunte aí o que eu disse, a música está boa, a música está alta. Vou contar o caso sem nexo da nota Sol para disfarçar o Só; todos sabem maquiar a solidão. Não, meu bem, não é bem assim não!
Só sei de tudo que aconteceu comigo, só posso dizer isso. Falar ao meu respeito, e torcer para que ouça. Para que leia. Mas eu sei - sim, eu sei - que fluxos mentais desenhando frases aleatórias na tela eletrônica não interessam a ninguém. A não ser que eu me chamasse Graciliano Ramos. Enfim, ninguém vai me ver.
Minha discrição me conforta assim. Acho que posso me surpreender então. Sou apenas uma esquecida no campo de batalha. Talvez a única sobrevivente, ou a única que se prendeu a isso aqui. A luta por aquilo que supostamente quero. Ou alguém determinou que quero? Posso fazer uma pergunta?
Você acreditaria em mim? Se eu disser agora que meu quarto é uma trincheira. Tudo aqui parece um punhado de restos mortais de um confronto que nunca existiu. São trapos da farda que fantasio ser de outro soldado que formam as palavras nos discos que coleciono. E quem é que se importa? Quando eu, eu mesma, tento me convencer que nada disso existe. É uma guerra que eu mesma inventei.
Não quero uma resposta. Juro que não. Quero ver o sangue coagular, porque a ferida escancarada é real.
Eu me vejo cercada.


And if I show you my dark side
Will you still hold me tonight?
And if I open my heart to you
And show you my weak side
What would you do?
Would you sell your story to Rolling Stone?
Would you take the children away
And leave me alone?
And smile in reassurance
As you whisper down the phone?
Would you send me packing?
Or would you take me home?


No banco traseiro do táxi, meu destino é Piauí. Infelizmente, não sou livre para me exilar, então o motorista apenas passa pela Rua Piauí, para me deixar em outra rua com estado brasileiro.
Minha cabeça parece dar a última rodada, e a cidade me atropela no momento em que as rodas aceleram. Arranho o banco de couro, jogo a cabeça para trás e fecho os olhos com força. Não sei quando foi, mas de repente o delírio me parece real. As aranhas; juro que tenho sido perseguida por aranhas.
Irônico. Mas nenhuma venenosa. Tenho preenchido cadernos com textos cheios de metáfora... Sou Eva, morrendo envenenada com a maçã. Branca de Neve então; será necrofilia se Adão não resistir à oferta da maçã? No fim, mulher leva a culpa por oferecer nua, é dependente de uma costela... Louve a serpente.
Isso sem falar da insônia.
De olhos fechados vem tanto delírio, tanta verdade... Ouço e ouço, mas não tem som de vozes,  ou molas se contraindo e se esticando sem parar. Abro, e sei que estou acordada. Mas eu ouço sem querer. E sei o que vejo. Sei com quem vejo. Mas sei com quem desejo estar. E que diferença isso faz para os outros? Quando é muito mais fácil calar e manter os olhos opacos. E calcular, calcular...
Por que números precisam ser tão complicados? E insensíveis, talvez. Que deve dizer das letras então, que parecem dar valor àquilo que não faz sentido. Não faz sentido.
E os extremos me abraçam e me acompanham pela madrugada fria... O frio psicológico que parte do meu próprio vazio. Interior e exterior. Porque eu sei que tudo isso aqui é uma farsa. E, mais do que nunca, tenho a prova de que sou vista como substituível. E isso é pior do que tudo.
Só que não vai saber disso. Eu sei que não.
E eu não desejo. Talvez devesse, por uma questão idiota chamada "orgulho"... Mas eu nunca faria isso.
Vamos lá; é uma réplica. Como é que explico então? Não dá para ver a diferença? É apenas superfície...
Não, não quero explicar. Porque quando abro os olhos, sei que tudo o que o mundo ouve é o som dos carros. E, infelizmente, dos tiros. Parece que estamos no meio de uma guerra. Infelizmente, torno a repetir.
E ninguém vai ouvir o meu berro abafado por um silêncio que me sufoca. Uma palavra positiva me faz falta. E QUE DIFERENÇA ISSO PODE FAZER NA VIDA DE ALGUÉM, eu berro. Eu rasgo a ferida e minto que os vermes vão dar conta da carcaça. Até os abutres esqueceram da minha existência.
Como é que eu posso dançar ballet clássico de pernas quebradas? É só delírio.
O taxista vai perguntar para onde desejo ir. Quero estar no livro que o homem formado em Literatura segura, mas tem uma aliança dourada na mão esquerda. Não ligo. Posso dizer que vou para o ensaio fotográfico na casa de Lewis Carroll. Mostro a identidade; passei da menoridade, e não posso mais bancar a boba.
E deixa eu contar a grande novidade para o mundo. Não vou pegar a estrada com a desculpa de quem não tem a carteira de motorista, sabendo que eu mesma quebrei estas pernas. Apontei o dedo na direção do outro soldado.
Solda então.
Quando pegar o trem das onze, solda meu coração nos trilhos do trem.
Ainda bate, ainda sangra. E eu, vazia como estou, agradeço que a linha verde do metrô esteja interditada hoje, porque não conseguiria me equilibrar diante da inércia. A quantos quilômetros por hora eu seria arremessada pelo vagão. Estenderia a mão? Porque estou aqui, meu bem. Com a mesma cara de "não quero me apaixonar" que todos fazemos ao encarar os olhos da outra pessoa, na tarde de alguma quinta-feira esquecida no passado. E o escudo só funciona quando menininhas carentes encaram o professor de Literatura com aliança na mão esquerda; manhãs de quinta.
Taxista diz para Deus me abençoar, e penso em Tupã. Eu, soldadinho nacionalista! Mas apenas desejo o mesmo, fingindo que a trincheira vai com ele pelas ruas da cidade. Sei que retornarei a partir do momento em que me encontrar solitária, notando o vazio que arde no lugar em que deveria sentir o coração bater.
Sei que eu sinto de verdade. Tudo.
E tudo isso poderia ser uma declaração de amor ou uma crítica estúpida, mas quem é que liga para fluxos? É apenas sangue bombeado. BOOM!


Thought I oughta bare my naked feelings,
Thought I oughta tear the curtain down.
I held the blade in trembling hands
Prepared to make it but just then the phone rang
I never had the nerve to make the final cut






PS: Nada a ver. Mas hoje faz um ano que um Beatle - RIIIIIINGO :) - apontou pra minha cara, e embora eu não seja mais tão louca por nenhum dos meus ídolos, lembrar disso me emociona. Porque os Beatles fizeram mesmo parte do meu amadurecimento, muito deles lembra acontecimentos importantes (pelo menos para mim) da minha breve vida. E eu amo o Ringo... E foda-se se isso aí é digno de tomar um "foda-se"; maior hipocrisia acabar post com "espero que tenham gostado" ou justificando atraso. Ainda mais se as ideias nem são suas. Ame-me ou deixe-me em paz, tchau.

sábado, 20 de outubro de 2012

le voyage dans la lune



pas de deux


Dobrei a esquina e cheguei à Lua.
Pergunte-me então como é a vista aqui de cima.
Sem saber que meu corpo continua nos trilhos.
Ou ignorando, apenas.
Seja como for, o que tomou junta poeira na estante.
E o que sobrou, meu bem, os vermes dão conta.
Aos poucos.
Se quer saber; ainda.

Ainda está aqui?
Para ouvir a história toda?
Da falta de gravidade ou das pegadas na Lua.
Nenhum sóbrio pisa na Lua, meu bem.
Apenas aqueles que se embriagaram da própria melancolia.
E os militares não sentem.
Só o medo, porque é isso que nos torna humanos.
Mas eles andam com colete a prova de bala.
Só anda com colete a prova de bala quem está armado.
E você sabe.
Pior sou eu, que me escondo na cabine telefônica.
De vidro blindado.
Sem ter para quem pedir ajuda.
Quando puxo o gatilho contra mim.


~º~º~º~º~º~º~º~º~º~º~º~º~


Tudo que passava na frente dos meus olhos se resumia a... nada.
Há poeira acumulada na forma de castelos e moinhos.
Sem as sapatilhas; danço pas de deux sobre a falsa memória.
Dava para escrever sobre toda a farsa que parou no tempo.
Não; não dá mais.

Não passou de delírio.

Os cartazes me pedem para manter a calma.
Quando tudo o que vejo é o monte de poeira desmoronar bem na minha frente.
As cinzas se desfazendo nos meus dedos.
Minha pele se vai, ao mesmo tempo.

Missa de décimo terceiro dia.
Algo aqui dentro morreu; então?
Acho que foi a fé.

Quantos dias não durmo; quantos dias a cabeça lateja?
Há certeza.
Do vazio que a ausência preenche.
Meu corpo desequilibrado pela saudade, o nada arde.
O nada que me deixa é o que me faz crer que tenho tudo a perder.
Porque insistem, aconselham...
Cartazes dizem que não temos nada a perder.
O que me causa esta angústia se resume a... nada.
Veja bem; está em tudo.
O nada é tudo que eu tenho.

Falo, pareço nem sentir as palavras passando pela garganta.
Ouço o nome do que sinto e parece ter saído da boca de um outro alguém.
Tudo parece tão distante; quase inexistente.
Permito que a  baixa temperatura tome conta do meu corpo; por não ter onde me segurar.
Que ideia a minha!, sei da ironia do corrimão.
Enfiaria as mãos dentro do próprio casaco para se manter aquecido.
E eu entorpecida da minha própria ilusão.

As ruas vazias consomem minha carcaça.
Os cartazes dizem para eu manter a calma;
apenas posso me sentir aquecida por olhares frios.
Eu acredito.

Quem estende a mão àqueles da plataforma não estende a mão ao cadáver nos trilhos.
Tento correr, mas ainda estou aqui.
O trem apenas passa por mim.
Não me atire conselhos como esmola, centavos como fôlego.
Não; não depende só de mim.

Quebraram minhas pernas para não fugir, e mesmo assim, concluo o pas de quatre.


~º~º~º~º~º~º~º~º~º~º~º~º~


O disco roda sob a agulha; piruetas e pas de deux... 
Saltando a poeira e repetindo passos riscados.
Arriscados.


jugband blues




Tudo o que ouço é sua voz dizer...
"Alice, acorda que o mundo é mau!"

domingo, 7 de outubro de 2012

l’arrivée d’un train en gare de la ciotat


pas de quatre



Então eu respondi aquilo que me perguntaram
Respondi que deixei nos trilhos do trem o que perguntaram estar no bolso de alguém.
Eu caminhei nos trilhos do trem.
Dancei o ballet clássico, como tinha de ser.
Dancei o pas de quatre sem ninguém por perto.
Sem outras três bailarinas, sem outros dois maridos, sem uma outra mão para segurar firme.
Corrimão.
Corri então, escadaria abaixo.
Acompanhada apenas pelo sabor da minha própria ilusão.
Mão então, com o vácuo do esconderijo que arranjei no delírio e na solidão.
Superlativo pesa.
É fácil dizer que para se livrar do peso um peteleco ou um balançar de ombros basta;

quando se tem muito dinheiro no banco.
É fácil dizer que apenas sentir o amor basta.
É fácil acreditar em Deus quando se necessita de uma mentira para sobreviver.
Ou fingir que ainda está aí, sem estar nem aí.
É fácil perceber que ainda estava vivo quando se sobe a escadaria.
Quando percebe o coração acelerar.
Quando olha para o alto e vê um relógio com ponteiro para girar, seu sangue para pulsar.
Sangrar.
Quando se desce a escadaria.
Mas é mais fácil perceber a morte.
Porque ela está sempre mais viva, mais bonita, mais temida e mais rica.
Que seu Deus, seu amor e seus ídolos.
E você.
Porque a morte abraça; os outros não.
E fica muito mais claro quando não se pode descer as escadas, por medo de altura.
Despenca então.
Tropeçando, mesmo que sóbrio.
A lei é seca; e para sonhar é preciso dormir.
E na queda, nunca tem corrimão para segurar.
Quando tem, fica ali, observando tudo, no maior descaso.
Fez-se inerte, quando na verdade é ferro maquiado; da mesma tinta que o poeta usa.
A lei da gravidade nunca quebra, mas seus ossos sim.
O trem vem; e eu fico.
O trem se aproxima; e eu espero.
A morte sorri.
E aponto a faca, num gesto patético de me sentir grande o suficiente para enfrentar a dor.
Mesmo dançando pas de quatre, que não é papel principal.
Ninguém brilha dançando o pas de quatre desacompanhado; na linha do trem.
E os trilhos são feitos do mesmo ferro do corrimão; o ferro que perfura meu coração.
Superlativo pesa no sangue e nunca se mostra suficiente.
Mas o trem se aproxima e continuo a dançar o que toca em minha mente.
Quando a música já é outra, quando os passos já são outros.
A morte sorri.
Sorrio de volta quando ela toma a faca da minha mão.
E enterra a faca no meu pé, para que eu não fuja; sabendo que não é necessário.
A escadaria já está deitada no chão; tudo no mesmo plano.
Mas eu olho tudo lá debaixo; tentando encontrar o cogumelo.
O trem passou; e eu fiquei.
No mesmo plano do chão.
Pensando no beijo que tinha gosto de cigarro apagado; ali, debaixo da cesta de basquete.
A bola cai; a ficha não.
A ficha nunca está limpa, e já estou de olhos abertos.
Mas dançando passos da música anterior, vivendo de sonho.
Quando o sol já insiste em queimar meu rosto e expor as dúvidas, as dívidas, tudo.
Se é o mundo que aqueceu de repente ou a morte que me esfriou.
O asfalto ferve e minhas costas resfriam; o ferro dos trilhos me queima e minhas veias param no tempo.
O relógio já não tem mais ponteiros, como nos sonhos de Bergman.
Mas isso aqui, isso aqui é realidade.
Meu corpo continuou nos trilhos; mas a vida apenas seguiu em frente.
No trem das onze.


º~º~º~º~º~º~º~º~º~º



 Nenhum sóbrio deve ter ido à Lua; apenas à rua.
Papéis na rua; todos muito atores, todos amadores.
Linha da vida.
Linha da morte.
Linha da sorte; inventei minha própria morte num garrancho sem nexo.
Sem metrificação ou escola literária, o amador rimaria com sexo.
Mas tudo isso fede a moralismo, e não felicidade.
Se quer saber.

strawberry fields forever




Tudo o que ouço é sua voz dizer...
" Alice, desce do cogumelo que o coelho já passou."

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

uma resposta às pessoas da sala de jantar



Chego treze para as duas na Augusta, com o dinheiro na mão. Já acostumada com as filas desta cidade, acho cômico como senhoras ficam se gabando por pegar a fila preferencial do idoso - fica ainda mais engraçado quando as rugas se contraem; dava na mesma, é muita gente pra um cinema só. Nem é pra tanto, era uma dúzia no máximo. Mas tomara que um dia, um dia seja, para todos e sempre a mesma cerveja, Gil cantaria, e nessa situação cai muito bem. De qualquer jeito, todo mundo conseguiu garantir sua poltrona dois minutos antes do início da sessão - a sala de cinema vazia, o que era ótimo! Comerciais passam... E nesses cinemas um pouco mais alternativos, parece ser obrigação ter trailer de filme francês. Mania de pensar que francês é cult, inglês é cool. Então as luzes estão totalmente apagadas, e Caetano vem cantar com Gil na tela. A partir daí é um espetáculo. O mosaico que tem um fragmento melhor que o outro. É a exposição de Hélio Oiticica (seus belíssimos parangolés), trecho do filme Terra em Transe (pois é, gosto é gosto; gosto dele), a voz charmosa de Caetano Veloso, Gilberto Gil dando um show no exterior, Nara e Gal comovendo com suas vozes, meu fôlego - ou falta dele - com Os Mutantes, uma estreita brecha para Elis com Wilson Simonal... Como não se divertir com Nosferatu do Brasil? Tom Zé, que figura! O contraste da sombria ditadura com o colorido da música, acho que é isso. Um pouco de esperança quando não se pode sonhar. Curativo para as feridas abertas. Não consigo torcer o nariz nem quando Roberto Carlos aparece - que, sinceramente, nunca conseguiu passar na minha garganta. As imagens do exílio de Caetano e Gilberto... Londres, lugar que só tem chuva. Mais uma vez, me pesa uma certa ignorância. Por que dou mais ouvidos aos artistas estrangeiros se a verdadeira riqueza está aqui? País de berço. Nesse momento sinto, mais do que nunca, pena de menininhas declarando Paris, je t'aime ou I love London. Ou é meu exagero com o tal Brasil, mostra tua cara. Veio uma frase um tanto aleatória na minha cabeça, e na hora acabei definindo o movimento Tropicália como delineador da pátria - só Deus sabe o que eu quis dizer com isso, foi uma estupidez da boca pra fora. Saio do cinema quase cambaleando, com uma comoção parecida com a que se sente ao ouvir Echoes pela primeira vez (desculpe-me citar Pink Floyd hoje), ou A Day In The Life (hum, chutei o pau da barraca, já era). Quando se fala da rua Augusta, muita gente dá uma olhada maliciosa. A rua em que se pagam os orgasmos. Pode ser; quem usou a expressão "orgasmo musical" devia ter assistido a esse documentário. Assim que comecei a gostar do lugar que não tinha as melhores lembranças, Rua Augusta-ta (perdoe o plágio, Rita Lee). O que ainda estou fazendo na sala de jantar? Ocupada em nascer e morrer.




Pois temos o sorriso engarrafado, já vem pronto e tabelado... É somente requentar. E usar! É somente requentar. E usar! Porque é made, made, made, made in Brazil. Porque é made, made, made, made in Brazil.

sábado, 1 de setembro de 2012

Rascunho não autorizado.


O que faz você pensar que seu quarto está quente? A impressão que passa é que está tão frio - senão mais - do que estas ruas... Cobertas pela neve; é inverno, é o olhar das pessoas congela o asfalto atípico de um país tropical, abençoado por Deus. 
Qualquer boteco é mais quente que as esquinas. Você sabe. Você lembra. Você sabe que os passos ritmados podem mantê-lo confortável e até mesmo entorpecido. Você lembra que é na rua que você é pego com as calças na mão; a corrente de ar frio que atinge seu corpo e faz sua máscara cair. A realidade é fria e penetra cada poro seu, afim de cortar seus ossos. Afim de transbordar seus olhos.
E não adianta olhar para trás a cada passo que dá. Você sabe muito bem que é você mesmo que o persegue, é seu passado que condena. Ninguém mais. 
Você aguarda o trem na plataforma, encarando seus pés. E sabe o quanto a vida é vazia no momento em que a única magia restante é o contraste do seu corpo empalidecendo de luto com suas roupas escurecendo de frio. Você aguarda o trem na plataforma e espera que os trilhos o levem para a felicidade. O trilho alegre, uma porra dessas. E são expectativas em vão, porque o retorno é sempre o mesmo. Você até muda as bandas dos fones de ouvido, mas tem dias que os caras parecem dizer a mesma coisa. Tem dias que você não consegue diferenciar Wagner de Dylan; os dois soando ordinários! O mundo merecia explodir, a sociedade fede. Então o trem chega e você se arrepende de não ter pulado na frente, mesmo sabendo que não tem coragem - mesmo sabendo que não tem nada a perder.
No vagão você encara todo tipo de gente que era compatível ao seu paladar... E já não se surpreende. Perdeu vontade. Talvez seja a hora de procurar no Achados & Perdidos, mas não se encontra tesão no Achados & Perdidos, que dirá amor, e essas tolices. Tolices! Amor mata. Orgasmo também mata. Espermatozóides pela pia. Na verdade, você concluiu que a rotina mata. Ou é essa cidade, ou são as pessoas, ou é o transporte público, o sovaco fedorento na sua cara... Essa merda de bolsa ocupando mais espaço do que deveria. Essa mulher não tem banha demais para roupa de menos? Porra. Porra. Porra. Não é a toa que vive de brocha. 
Caio, você cai como minha máscara; lembra? A gente não tem mais máscaras não, mocinho, nem motivos para tê-las. E a gente que cai mesmo.
Clarice.

sábado, 11 de agosto de 2012

sobre o gelo fino


Andei rodopiando sem as sapatilhas, para sentir o frio do piso de mármore.
O calor do piso de madeira.
Permito o desequilíbrio na corda bamba; leve na queda.
Caio no abraço de quem estiver por lá - e se eu quiser que esteja por lá.
De quem queira me segurar.
Não me segure agora; quero perder o controle no controle de um abraço.
Do seu abraço.
E que sua jaqueta me cubra; estou com frio e despida.
E que seu beijo me alimente; estou faminta e perdendo peso.
Que meus versos digam tudo; nossos olhos estão muito calados hoje.
Sinceramente, minha boca está seca e preciso de uma dose.
Uma dose daquilo que prova que as bandas de rock falavam a verdade.
Dos dedos que se fundem com o metal das alianças.
Dos corações que batem no mesmo ritmo.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

pra não dizer que não liguei


Nós desfeitos não querem dizer muita coisa quando prefiro não demonstrar.
A liberdade é um verdadeiro enrosco, cara, e nada do que sei cabe na linha telefônica.
Bom, é que eu acho que justo seria explicar, mas não sei bem como explicar que sou livre quando presa.
E assim, sem perguntas incoerentes para responder, nada parece fazer muito sentido e qualquer palavra que sair da minha boca pareceu uma luta em vão.
Derrubarei uma floresta inteira para conseguir expressar, e vai continuar sendo insuficiente.
Laços desatados agora seriam tão trágicos quanto uma corda de guitarra arrebentada...
Ouve, meu silêncio tem ecoado e pareço não ter retorno.
Procurei nos dicionários; mas de que serve um dicionário se não sabemos a palavra que procuramos?
Encontro respostas sem pergunta, essa é que a verdade... 
Como vê, o sentido não se encontra no bolso, acho que amputarei os bolsos de todas as minhas calças; e arranje-me um cinto.
Tenho forçado sono para ver se me prendo à cama e sonho com algo que possa ser conveniente.
Mas têm faltado parágrafos em cada texto meu e acordes no que ouço.
Abri a carteira para ver se lá encontrava minha inspiração, mas só encontrei umas notas sujas.
Eu fico me perguntando se as coisas que tenho para dizer vão caber na mala; nem tenho para onde ir.
Quero aquilo que se encontra em uma voz desafinada e em um sorriso torto.
Quero o que falta para não sentir falta, é isso. 
O que a gente sabe que existe; sem padrões idealizados... A verdade bela. E rara.

domingo, 22 de julho de 2012

she was just seventeen and you know what i mean


Anoiteceu e sinto o gosto do capuccino caro na boca. Algo que aquece - um pouco. Meus passos seguem, meu celular toca, David Bowie berra no lugar de alguém, e bate a preguiça de viver. Só tenho 17 anos e me vem a sensação de "espero morrer antes de envelhecer". Pergunto-me se antes de partir vai dar tempo de ler tudo e ouvir tudo que quero. E escrever no nível que pretendo - embora não conheça... Sei lá. Viro a esquina que dá para a rua de casa e só consigo pensar neste lugar com desconhecida melancolia. Quando eu tinha dez anos era tão legal pensar que aos 18 estaria longe daqui... Aí a gente cresce e esses sonhos... crash. Embora conheça muitos que pensaram assim até os 17, falta de tapa na cara, com certeza. Paciência. Paciência me falta; intolerante a certas atitudes. Serei uma velhinha ranzinza com pouca coisa interessante para contar - tomara que não -, e mesmo assim há quem vasculhe as minhas gavetas. Mas eu me pego sorrindo com lembranças agradáveis, algumas um tanto aleatórias. As emoções podem subir e explodir feito fogos de artifício - cores belas, barulhos irritantes. Véspera de ano novo.

domingo, 15 de julho de 2012

Caio das estantes, querida, caio de instantes.

Caio do céu, moça. Só para fazer você acreditar que a vida não é só inferno. Caio nos seus sonhos e você não tem do que reclamar; só quer um pouco desse paraíso. Tiro um pouco da sua dor quando meus olhos varrem sua alma; tão pesada. Moça, você tem medo de ser leve, mas sabe que lhe caio muito bem. Caio tão bem em você quanto uma luva na mão. Eu imagino que você vai dizer que lembrou de George Harrison, mas sei muito bem que vou satisfaze-la se citar Machado de Assis. Caio das estantes, querida, caio de instantes. Caio assim, com essa cara de santo e um sorriso de quem não é  tão santo - aí que venço. Colocou os olhos em mim quando eu estava de joelhos; nosso primeiro contato. Caio como quem vai respeitar você; é o que a posição de vassalo diz. Caio como um travesseiro depois de uma madrugada de lágrimas, e você segue sorrindo. Caio como esperança - tinha que ser; é tão desconhecida em uma mente depressiva como a sua. Caio tão bem no seu organismo quanto água pura. Caio tão bem quanto um casaco e um lar para você, que passou frio. Caio tão bem quanto o que a tornaria completa. Mas para isso tudo você tem que ter coragem de me agarrar quando caio nas suas mãos. Vista-me, moça, porque quem precisa cair é você. Caio tão bem quanto você sem máscara, Clarice.

Não leve rascunhos a sério.

Minhas mãos estão sujas de tinta e ainda parece mais bonito do que sujas de dinheiro ou mais saudáveis do que sujas de nicotina. A caneta vai escorregando num garrancho espetacular e sinto minha mente fluindo na folha do caderno. Espontâneo. Reflito sobre loucuras.Eu disse para mim que era preciso estar sóbrio para brigar e louco para sorrir. Agora discordo, sabendo que sorrio sem estar sob o efeito da bebedeira. Minhas mãos  estão suando e borrando as palavras. Ontem a noite conclui que os bêbados verdadeiramente bonitos são os tristes, na lama. Esses sabem porque beber e porque morrer, mas não têm coragem de puxar o gatilho. 

sábado, 9 de junho de 2012

A grand piano to prop up my mortal remains.

E não foi por aqui que nós entramos? É assim que termina e começa tudo, mas sabes muito bem o que penso: não tem fim, não tem começo. Andando em círculos, caro leitor. Quem prestou atenção nas instruções de voo sabe que este avião sempre cai - a rainha nos quer na guerra; disputaremos território.
És parte de todo espetáculo; mas quem diria. Enquanto as bilheterias desistem do meu monólogo vou tentando, em vão, escalar o muro. Meus dedos já estão mais do que feridos, de tanto tentar fixar meu corpo à estrutura sólida. Agora posso compreender muito bem que o concreto e seus retângulos tão perfeccionistas - ora, mas é claro! - me atraem; mas não me aceitam. Assumes? Não, não... Mentes para agradar. Interpretei as metáforas do muro já faz um bom tempo e só Deus sabe porque me apaixono por tapas na cara com luvas de pelica, chutes no estômago com botas do exército e cortes na pele com lâminas comunistas - enferrujadas; querem o pouco ferro do meu sangue oxidado, oh! Tapo meus olhos com minha máscara favorita, e finjo não perceber que cada mentira é um tanto esfarrapada; chega a ofender a suposta inteligência humana. Sabes onde quero chegar.
Segue o velho papo furado das asas de pássaro. Digo que tenho destino idealizado, mas minhas asas estão quebradas. Depois vou dizer que sei voar, mas não tenho para onde ir. Podes ver, não? Não passa de disfarce. Da mesma maneira que mantenho-me presa nesta gaiola destrancada, esperando teus dedos para me alimentarem, alimento as falsas esperanças. Espero teu dedo para subir e cantar, enquanto canta a mesma música que ensaio para algum outro pássaro.
Encaro o que sobrou; meu quarto mais parece uma trincheira. É lembrança atirada para tudo quanto é canto; e a falta de brilho nos olhos dos cadáveres indica a ausência de vida. Acabo sem mesmo ter a minha inocência, minhas expectativas e meu sorriso de volta - sabes contar dinheiro, o troco está errado. És uma fotografia rasgada agora... " Sem cor sem perfume / Sem rosa sem nada"; como todo início lancei o "que seja infinito enquanto dure". Lembras? Ah, mas... Oh, se eu quisesse mãos mais frias que as minhas...
E meus dedos que agora se ralam contra a muralha ficariam bem melhores sobre a corda deste violão que me encara, sabes muito bem. Não o toco há meses; talvez nunca mais encoste a ponta da unha. Dar o fora; deixaria de lado esse esforço e me daria ao luxo de montar uma canção de audiência estupenda. Era isso que eu deveria ter feito, mas quero fugir do lógico; hei de morrer na miséria material e espiritual, caso se concretize o que praguejas na capela, e seus trajes de tratados convenientes da vida.
Cometerás adultério no momento em que der as costas ao aliado; és tão hipócrita quando aquele que canta sobre a tal Young Lust para depois fazer a pessoa provocada suplicar com Sexual Revolution, sem sucesso. És quem faz do coração alheio motel, plantando semente do ciúmes. Não sairás tão cedo do coração; pelo amor de Deus, preciso dar o fora daqui!
Gemes; é o prazer de ultrapassar fronteiras do inimigo. Eu gemo de dor. E depois de chegarmos ao ápice ela engravida, tu adormeces e eu morro. De qualquer forma, todos se sentem aliviados e seguem.
Querem que eu marche em círculos, mas eu preciso dar o fora! E a pior parte do círculo não é o fato do fim ser a mesma coisa que o começo, mas não ter cantos para libertar as lágrimas. É preciso esquecer, é preciso sair daqui...
Vão me arrastar para a correnteza, vão me torturar e eu vou esquecer. Depois vão me convencer de que és a verdade e a razão. E vou pensar se não foi daqui que comecei ou terminei, e, realmente, precisamos de escapismo. Vão me oferecer o violão para calar a boca; quero ser poetiza, mas eles querem música. A bilheteria desiste de mim; não acho correto recitar meus sonetos com umas cordas desafinadas no conjunto, mas quero meu jeito abstrato encaichado nos espaços já preenchidos por concreto no muro. Elogias e praguejas; meu caos não tem audiência, mas não me deixam sair daqui. Onde arranjo passaporte; não me respondes. Não entendo tuas intensões, mas entendo tuas ideias. Vou fingir não entender para não aparentar ser ridícula; sabes que sei tuas farsas de cor. Como a atriz que decorou as falas, mas tua bilheteria não me quer!
És verdade, és mentira. És concreto, és abstrato. És tudo, és nada. És término, és começo. És o tal sentimento Amor, em todos os sentidos mais puros e imundos, programado para explodir feito a bomba de Hiroshima. E não foi por aqui que nós entramos?

domingo, 27 de maio de 2012

Tudo bem; eu tô bem.

21 de maio de 2012


" [...] O que fazer agora? Nada; a não ser abrir a porta do caro e agradecer a carona, mesmo que de maneira sarcástica. Cada um seguindo sua estrada, você continua no carro. Eu vou me acostumar a andar de salto alto, só leva um tempo."

sábado, 12 de maio de 2012

Prelúdio Nº3


Aquele corvo me fez uma visita naquela madrugada fria. Não foi das mais agradáveis, dá para imaginar. Posso adiantar que foi pior do que seu hábito de perturbar, ah, e como foi... 
Estava quase adormecida, quando ele entrou no meu quarto. A porta estava trancada, a janela fechada. Esta, mesmo que aberta, teria grades e tela de proteção impedindo a surpresa do pássaro. Mas invadiu, deu um jeito. Sem charme e gingado de malandro carioca, a criatura assustadora encontrou alguma fresta. 
Que bom teria sido se me furasse a vista. Virou meus olhos, para que eu pudesse observar tudo o que estava dentro de mim. Para que eu desse uma boa lida nos arquivos que não consegui queimar. Para que eu tivesse plena consciência daquilo que tentei esconder de mim.
Como seu grito estridente seria muito mais agradável do que ser forçada a ouvir meu próprio berro silencioso...
Foi poesia dos desregrados. Foi sentir todo prazer reprimido entrando em putrefação avançada; meu corpo congelou.
E quando abri os olhos, o pássaro se foi. Fez o estrago, e deixou-me ali... A tremedeira dominando cada terminação nervosa de meu corpo. As lágrimas formavam as malditas retas paralelas de minha vida, aquelas que caminham juntas e nunca vão se encontrar. Meu sangue ia evaporando, mas deixava seu ferro, pesando em minhas veias. Minha boca tinha gosto de palavras amargas.
Pensei em Ney Matogrosso. E não dormi.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Pequenas porções


Começa do cheiro, que vai escorregando pela atmosfera leve. Aquela mistura de café com chocolate, e uma pitada de nicotina. Aprendi a ficar encantada com esse cheiro. E ver beleza na simplicidade das camisetas de banda, das risadas espontâneas, do sorriso sincero. 
Nesses momentos, pareço ficar leve a ponto de evaporar diante de toda essa leveza. Leveza que finalmente consigo enxergar naquilo que muitos chamam de Rotina. Chamo de Conforto, e não me importo nem um pouco de confundirem com ócio. Faz bem rir do nada, sem ter um show aguardado, sem ter sido surpreendida. 
E o mais engraçado é que não fico assustada ao lembrar de que isso tudo vai passar. Como foi que a ideia do "nada é pra sempre" ficou natural para mim? Logo eu, que estava sempre com sentimentos à flor da pele. Nem sei, mas é bom saber que a vida é breve. Quero dizer, ajuda.
E agora os sebos ganharam um cheiro de esperança... Antes era apenas uma nostalgia que vivia procurando. Agora tudo soa como novidade. Complexo de entender, já que ninguém esteve lá para anotar. Mas eu sinto isso.
A vida nunca pareceu tão real e tão concreta. E para minha mente abstrata isso é inovador. Leva um tempo para acostumar a andar de salto, eles dizem.

( Desconfiados se sentem tão felizes com autoconfiança... Não posso fazer nada, a não ser rir um pouco. )

terça-feira, 24 de abril de 2012

Miss Lonely


Muito bem, Mr. Jones. Apenas mais um perdido por aí, como sempre. E você sabe disso.
Mas lá estava você, tem compromisso num sábado a noite, quem diria. Você tem o que? Uns trinta e pouco... Sua solteirice é inalada por quem passa perto, e toda energia que teria para alguém fica assim, gasta com trabalho. Mas tudo bem, você segue.
Como sempre, está lá, todo calado. Prestando atenção, como aluno bitolado, nada questiona. O professor faz de um jeito diferente, mas você nem pergunta o porquê. Não faz sentido.
Estacionou seu carro econômico, vestiu a jaqueta que sentiu falta. Seu jeans um tanto surrado, como costumava usar quando não era escravo do trabalho. 
Você não pode deixar de olhar para os grandalhões embriagados, junto de suas magrelas com cigarros. A vida que poderia levar, não é, Mr. Jones? Mas enfim... Seu cabelo já foi cortado. Sua barba não é ponto turístico pra muita moça, então é melhor se contentar com as revistas. As revistas entendem, e dão uma mão. Por aí, Mr. Jones? 
Que triste, que triste esses pensamentos. Você dá uma olhada para os lados, procurando. Mas não, melhor seguir em frente. O cara tá esperando.
É, o cara. Relembrar sua juventude, embora não tenha acompanhado a época de Dylan nas paradas de sucesso, Bob fez parte da sua juventude. É, um pouco de saudade e sonhos concretizados não fazem mal.
Você passa pelos corredores estreitos da casa de show. Estreitos pela fila do abastecimento. Oras bolas, Mr. Jones, você também já foi movido a álcool. Entra e pede um pouco de combustível. Antes mesmo de dizer alguma coisa elas já estão rindo de você, então é melhor beber tudo de uma vez, o show começa em poucos minutos.
É longe, porque foi o que seu bolso permitiu. Provavelmente, Mr. Jones, assim pensava, ficaria rodeado de casais apaixonados. É.
Você vai subindo a escada e vê um punhadinho de pessoas desacompanhadas. É sua fileira. Então ela... Ela ali, chama sua atenção. Faz seu tipo, físico pelo menos. Estava encarando o celular, no movimento repetitivo de ver as horas, hábito muito típico seu.
Pede licença, e você não sabe disfarçar um sorriso ao ver que seu lugar é ao lado dela. Ela também dá uma olhada, você pensa, pode ser um sinal, não é? Então senta, como quem não quer nada, mas você percebeu que ela percebeu. 
Fica lá, não lembra mais como que faz para puxar assunto. Percebe que ela olhou mais uma vez, então deve ter gostado de sua aparência, quem sabe. Ela não é do tipo que se importaria de ter metade da sua idade, o que é bom, não? 
Você simula um acidente e pisa de leve em sua sapatilha. Ponto, ela encara seu rosto e você manda um "desculpa" com sorriso que, você não percebe, como a maioria dos homens não deve perceber, mas que sorriso de tio tarado, Mr. Jones. Você deve ter pensado que o "ah, tudo bem" dela foi tímido, mas ela riu um pouco do seu jeito de investir.
Mr. Jones, as luzes se apagaram e ele apareceu. Você conseguiu ficar acomodado perto dela, e aos poucos estavam tão próximos que mais pareciam conhecidos de longa data. Você pensou, então, que a sorte estava lançada. Com certeza teria um pouco mais de sorte naquela noite.
Claro, você viu que ela não conseguia deixar de rir quando você tentava ser afetuoso durante aquilo tudo. Mas isso não desmotivou você, desmotivou?
Até que as luzes se acenderam, e todos de pé... Aplaudindo. Você, Mr. Jones, teve aquele sentimento jovem do "é agora". Bateu de leve sua mão no braço dela. Ergue a cabeça para o alto e encara seus olhos por instantes. Dá um sorriso de leve. Mr. Jones, você chega a conclusão que ela quer também. 
Ela encara o chão. Você segura em seu ombro, como quem quer puxar para perto. Ela apenas encara de novo, mas seu sorriso é como de quem se desculpa. E, sem mais nem menos, lhe deu as costas. E você ficou assim, confuso. Porque mais parecia que um provocara o outro desde o momento em que se viram.
Ela parou ou pouco no meio da escada e olhou mais uma vez para você. Você, Mr. Jones, tem aquele pequeno brilho de juventude, e ela é tão tranquila... Parece ser a tranquilidade que você nem tem mais. Mas ela parece estar de saco cheio desse seu espírito jovem, sabe? Então você apenas tenta seguí-la, mas logo desaparece no meio das pessoas.
E você, Mr. Jones, vai se perguntar, assim como outros perguntaram a ela... Se tinha alguém que a amava e que ela também amava, os dois se amavam... Ela respondeu... Não, é só coração partido. A outro respondeu que tinha alguém que amava, mas não sabia bem se ele a amava. E para você ela responderia... Tenho a mim. 
Você a batiza de Miss Lonely então. E passa na banca mais próxima, tem sempre uma gostosa a sua espera.


PS: Enfim, se tudo der certo, esta história continua. Das minhas mãos, né...

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Tira Tira Tira

  " Você virou o tira. Aquele que tira a liberdade do meu coração tirar você de minha mente. Tira, do bolso não é arma que tira, mas argumentos. Argumentos que me tiram a fala e o fôlego. Então tira meu coração.

Para você eles vão tirar o chapéu. Para você elas vão tirar a roupa. Você tira o dinheiro do bolso e tira proveito da situação.

Mas para você não tiro nada. A não ser a máscara."



Escrito no meu caderno de Matemática. Em algum momento de 2011. Não sei pra quem ou se foi mesmo para alguém. Só sei que gostei. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Sim, senhor.


Minhas pernas aparentam estar inteiras, sim, senhor. Há, porém, algo inusitado. Vem de mim, tenho certeza. A atmosfera parece mais fria que meus dedos, que aparentam empalidecer a cada semana. Até parece que meu corpo vai deixar de existir. O café, no segundo copo da manhã, aparentava ferver mais que meu sangue. Meu sangue que berra tanto... Parece querer explodir cada veia minha, tornando-me indiscreta.
Sim, senhor. 
Temos aqui a possibilidade de um sorriso, isso que você disse?
E temos a certeza do que sou.
Entende até demais, mas fale mais. Sim, senhor.
Seja lá qual for a pergunta...

Entenda. Como bem entender.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Punhal

Não deixe morrer em mim o que é seu.

Faça-me depender de você.

Deixe-me sem fôlego, sem escolha.

Entregarei o punhal a você.

Faça o estrago.

Tome de mim o que é seu.

E acho que sempre será.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Churrasco de manchetes

Não espere. Não duvide também.
Nem pense. O mundo não vai ser bom. O mundo não vai ser ruim.
Talvez aparente algo melhor. Ou então seja pior.
Em manchetes escritas com sujeira, a verdade embaixo da poeira... Se você enxergar, se você varrer... Sinto muito, chore a toa. Porque não é só de você que depende.
Não espere que o rio tenha água. Não espere por vacas cheias de carne. Não espere que, se tiver vacas cheias de carne, as comerá. Talvez coma uma delas. Mas ela lhe dará as costas antes do churrasco.
Apague a luz, como quem apaga um cigarro. Por favor, pense que não enxergar é saudável.
E faça silêncio quando apunhalarem suas costas. 
Sorria quando perder até o que não tinha.
E ataque as pessoas por acreditarem em algo. Ou ataque porque elas simplesmente não acreditam em nada.
Veja o literal. Interpretar metáforas vai matá-lo de fome. Sua mãe avisou, o padre também. E o presidente, e a polícia... E todo mundo vai fingir que não entendeu. Ou vai julgar os que não enxergam, e continuam a seguir o rebanho.
Não sou churrasco, pois bem. E não gosto desta manchete.